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sábado, 2 de julho de 2011

quando a escola é de vidro (Ruth Rocha)

o    Naquele tempo eu até que achava natural que as coisas fossem daquele jeito. Eu nem desconfiava que existisse lugares diferentes muito diferentes...
o    Eu ia para escola todos os dias de manhã e quando chegava, logo, logo, eu tinha que me meter no vidro. É no vidro!
o    Cada menino ou menina tinha um vidro e o vidro não dependia do tamanho de cada um, não! O vidro dependia da classe em que a gente estudava.
         
o    Se você estava no primeiro ano ganhava um vidro de um tamanho. Se fosse do segundo ano seu vidro era um pouquinho maior. E assim, os vidros iam crescendo à medida que você ia passando de ano.
o    Se não passasse de ano era um horror. Você tinha que usar o mesmo vidro do ano passado. Coubesse ou não coubesse.
o    Aliás, nunca ninguém se preocupou em saber se a gente cabia nos vidros. E pra falar a verdade, ninguém cabia direito.
         
o    Uns eram muito gordos, outros eram muito grandes, uns eram pequenos e ficavam afundados no vidro, nem assim era confortável. Os muitos altos de repente se esticavam e as tampas dos vidros saltavam longe, às vezes até batiam no professor.
o    Ele ficava louco da vida e atarraxava a tampa com força, que era para não sair mais. A gente não escutava direito o que o professor diziam, os professores não entendiam o que a gente falava...
       
o    As meninas ganhavam uns vidros menores que os meninos. Ninguém queria saber se elas estavam crescendo depressa, se não cabiam nos vidros, se respiravam direito...
o    A gente só podia respirar direito na hora do recreio ou na aula de Educação Física. Mas aí a gente já estava desesperado, de tanto ficar preso e começava a correr, a gritar, a bater uns nos outros.
        
o    As meninas, coitadas, nem tiravam os vidros no recreio. E nas aulas de Educação Física elas ficavam atrapalhadas, não estavam acostumadas a ficarem livres, não tinham jeito nenhum para Educação Física.
o    Dizem, nem sei se é verdade, que muitas meninas usam vidros até em casa. E alguns meninos também. Estes eram os mais tristes de todos. Nunca sabiam inventar brincadeiras , não davam risada à toa, uma tristeza!
         
o    Se a gente reclamava? Alguns reclamavam.E então os grandes diziam que sempre tinha sido assim; ia ser assim o resto da vida.
o    Uma professora, que eu tinha, dizia que ela sempre tinha usado vidro, até pra dormir, por isso que ela tinha boa postura.
o    Uma vez um colega meu disse para a professora que existem lugares onde as escolas não usam vidro nenhum, e as crianças podem crescer a vontade.
o    Então a professora respondeu que era mentira, que isso era conversa de comunista. Ou até coisa pior...
         
o    Tinha menino que tinha até de sai da escola porque não havia jeito de se acomodar nos vidros. E tinha uns que mesmo quando saíam dos vidros ficavam do mesmo jeitinho, meio encolhidinhos, como se estivessem tão acostumados que até estranhavam sair dos vidros.
o    Mas uma vez, veio para minha escola um menino, que parece que era favelado, carente, essas coisas que as pessoas dizem pra não dizer que é pobre.
        
o    Aí não tinha vidro pra botar esse menino. Então os professores acharam que não fazia mal não, já que ele não pagava a escola mesmo...
o    Entao o Firuli, ele se chamava Firuli, começou a assistir as aulas sem entrar dentro do vidro. O engraçado [é que o Firuli desenhava melhor que qualquer um, o Firuli respondia perguntas mais depressa que os outros, o Firuli era muito mais engraçado... E os professores não gostavam nada disso... Afinal, o Firuli poderia ser um mau exemplo pra nós... E nós morríamos de inveja dele, que ficava no bem bom, de perna esticada, quando queria ele se esticava, e até mesmo que gozava da cara da gente que vivia preso.
         
o    Então um dia um menino da minha classe falou que também não ia entrar no vidro.
o    Dona Demência ficou furiosa, deu um coque nele e ele acabou tendo que se meter no vidro, como qualquer um. Mas no dia seguinte duas meninas resolveram que não iam entrar no vidro também:
o    - Se o Firuli pode por que é que nós não podemos?
o    Mas dona Demência não era sopa. Deu um coque em cada uma e lá se foram elas, cada uma pro seu vidro...
o    Já no outro dia a coisa tinha engrossado. Já tinha oito meninos que não queriam saber de entrar nos vidros.
      
o    Dona Demência perdeu a paciência e mandou chamar seu Hermenegildo que era o diretor lá da escola.
o    Seu Hermenegildo chegou muito desconfiado:
o    - Aposto que essa rebelião foi fomentada pelo Firuli. É um perigo esse tipo de gente aqui na escola. Um perigo!
o    A gente não sabia o que é que queria dizer fomentada, mas entendeu muito bem que ele estava falando mal do Firuli.
o    E seu Hermenegildo não conversou mais.
o    Começou a pegar os meninos um por um e enfiar à força dentro dos vidros.
      
o    Mas nós estávamos loucos para sair também, e para cada um que ele conseguia enfiar dentro do vidro, já tinha dois fora.
o    E todo mundo começou a correr do seu Hermenegildo, que era para ele não pegar a gente, e na correria começamos a derrubar os vidros.
o    E quebramos um vidro, depois quebramos outro e outro mais.
o    Dona Demência já estava na janela gritando:
o    - SOCORRO! VÂNDALOS! BÁRBAROS! - para ela bárbaro era xingação.
o    Chamem o bombeiro, o exercito da salvação, a polícia feminina...
      
o    Os professores das outras classes mandaram cada um, um aluno para ver o que estava acontecendo.
o    E quando os alunos voltaram e contaram a farra que estava acontecendo na 6ª série todo mundo ficou assanhado e começou a sair dos vidros.
o    Na pressa de sair começaram a esbarrar uns nos outros e os vidros começaram a cair e a quebrar.
o    Foi um custo botar ordem na escola e o diretor achou melhor mandar todo mundo pra casa, que era para pensar num castigo bem grande, para o dia seguinte.
o    Então eles descobriram que a maior parte dos vidros estava quebrada e que ia ficar muito caro comprar aquela vidraria tudo de novo.
      
o    Então diante disso, seu Hermenegildo pensou um bocadinho, e começou a contar para todo mundo que em outros lugares tinha umas escolas que não usavam vidro nem nada, que dava bem certo e as crianças gostavam muito mais.
o    E que de agora em diante ia ser assim: nada de vidro, cada um podia se esticar um bocadinho, não precisava ficar duro nem nada, e que a escola agora ia se chamar Escola Experimental.
o    Dona Demência, que apesar do nome não era louca nem nada, ainda disse timidamente:
o    - Mas seu Hermenegildo, Escola Experimental não é bem isso...
     
o    Seu Hermenegildo não se perturbou:
o    - Não tem importância. A gente começa experimentando isso. Depois a gente experimenta outras coisas...
o    E foi assim que na minha terra começaram a aparecer as Escolas Experimentais.
o    Depois aconteceram muitas coisas, que um dia eu ainda vou contar...

Um comentário:

  1. Show d bola.. Boas recordações desses "nossos" primeiros textos circulares!

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